
Fechando a porta do carro deixando pra fora um pedaço lilás de fim de tarde. Com seus olhos nublados de fadiga olhou para ela em desordem. Nunca fizeramparte um do outro, ele e o lugar. Lugar nenhum.O carro soltou um rangido agudo,quando sentou e apertou o botão do aquecedor.Um livro ainda guardava sob apoeira e velhas idéias do que fora um amor,a célebre frase “te perdi entreos dedos”que um dia repetiu– sem saber porque. Frases.Talvez fosse a formaque encontrasse de fazer a vida ainda mais complicada.Quanto mais palavras,mais confuso o significado da existência.Do outro lado das paredes descascadasdaquele bar ela avistava o futuro,e ali, naquele ambiente claustrofóbico,só conseguia ouvir os sons do passadoaçoitando o presente. Se soubesse aindacomo fazer, seria um excelente momento paraderrubar algumas lágrimas,mas a fisionomia dele continuou impassível,sem demonstrar nenhuma emoção.Fazia algum tempo que ele perdera a capacidadede sentir amor por si mesmoou pelo outro. Uma sequência infindávelde experiências frustradas.Vida vazia. Só de pensar, o ar doía cada vezmais em meus pulmões.Precisava de um trago. Enquanto ele erguiasua única companheira:um copo de cachaça.Deitou-a sobre o copo. Um gole longo.Ela sim valia alguma coisa:inebriava os sentidos, soprava a solidãoe era quem embalava seu sono,embora também trouxesse os mais sombrios pesadelos.Até ela – a garrafa – era a salvação de alguém,tinha sua razão de ser.Ele não. Já fora filho, já não seria pai ou amante.Aliás, não seria nada mais, nem uma lembrança...talvez só para ela.O tempo era seu inimigo invisível.Que a noite o engolisse.Um isqueiro sobre o painel,refletindo a fraca luminosidade.O copo de álcool barato pela metadee sua cara com a barbapor fazer refletida no espelho.Acendeu um cigarro,tragando profundamente. Bebeu num gole sóo liquido âmbar querestava no copo. Decidido, empunhoue cravou palavras como uma lâminacom força no coração. Um corte profundo,a última tentativa de matar o amor no único lugar onde ele ainda existia. Ele... Voltando ao nada... agonizando sozinho.
Cuide de você!




