20100910

EVERY NIGHT IS ANOTHER STORY


Fechando a porta do carro deixando pra fora um pedaço lilás de fim de tarde. Com seus olhos nublados de fadiga olhou para ela em desordem. Nunca fizeramparte um do outro, ele e o lugar. Lugar nenhum.O carro soltou um rangido agudo,quando sentou e apertou o botão do aquecedor.Um livro ainda guardava sob apoeira e velhas idéias do que fora um amor,a célebre frase “te perdi entreos dedos”que um dia repetiu– sem saber porque. Frases.Talvez fosse a formaque encontrasse de fazer a vida ainda mais complicada.Quanto mais palavras,mais confuso o significado da existência.Do outro lado das paredes descascadasdaquele bar ela avistava o futuro,e ali, naquele ambiente claustrofóbico,só conseguia ouvir os sons do passadoaçoitando o presente. Se soubesse aindacomo fazer, seria um excelente momento paraderrubar algumas lágrimas,mas a fisionomia dele continuou impassível,sem demonstrar nenhuma emoção.Fazia algum tempo que ele perdera a capacidadede sentir amor por si mesmoou pelo outro. Uma sequência infindávelde experiências frustradas.Vida vazia. Só de pensar, o ar doía cada vezmais em meus pulmões.Precisava de um trago. Enquanto ele erguiasua única companheira:um copo de cachaça.Deitou-a sobre o copo. Um gole longo.Ela sim valia alguma coisa:inebriava os sentidos, soprava a solidãoe era quem embalava seu sono,embora também trouxesse os mais sombrios pesadelos.Até ela – a garrafa – era a salvação de alguém,tinha sua razão de ser.Ele não. Já fora filho, já não seria pai ou amante.Aliás, não seria nada mais, nem uma lembrança...talvez só para ela.O tempo era seu inimigo invisível.Que a noite o engolisse.Um isqueiro sobre o painel,refletindo a fraca luminosidade.O copo de álcool barato pela metadee sua cara com a barbapor fazer refletida no espelho.Acendeu um cigarro,tragando profundamente. Bebeu num gole sóo liquido âmbar querestava no copo. Decidido, empunhoue cravou palavras como uma lâminacom força no coração. Um corte profundo,a última tentativa de matar o amor no único lugar onde ele ainda existia. Ele... Voltando ao nada... agonizando sozinho.
Cuide de você!
Eu queria te falar que se você entrar nessa eu entro também. Ou já entrei, não sei. Devo ter entrado, e já devo estar com água até os joelhos. Não tem jeito eu sou assim. Minha alma é perdida e o meu corpo é oferecido. Eu sou oferecida. Sempre fui. De peito aberto e a carne crua para matar a fome. Eu sou só o corpo. Um corpo inabitado e a alma rouca. Talvez um braço estendido esperando alguém me puxar pela mão e me levar. E se você quiser eu vou. E de olhos fechados que é pra sentir as borboletas no estomago. As tuas (...) e agora em mim. Eu sei que não deveria estar assim. E que eu deveria fazer alguma coisa para me parar antes. Você deveria me parar. "... porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. " Ou quem sabe esperar um dia nublado pra te ligar. Te convidar prum café e debaixo da mesa te sussurrar essas coisas. Nem que fosse de olhos fechados. Também não, que de olhos fechados eu esperaria um beijo roubado. Mas é que algumas coisas ficam melhor no papel. E muitas delas simplesmente brotam de mim. E sabe, gosto delas assim. Escapando pelos dedos. Até mesmo essa minha covardia em forma de prosa. E um pouco de poesia que é pra você não reparar. Eu nunca tive receio em derramar toda minha amargura e tampouco despejar toda minha doçura. Então me leva. E me guia que eu não posso mais ir sozinha. De uns tempos pra cá eu perdi meu senso de navegação. É simples e previsível: sou uma pessoa solitária. E se você soltar da minha mão tudo bem. Eu espero você voltar. E se não voltar eu fico ali até alguém me puxar. Sempre foi assim. Eu sempre fui assim. É o meu canto, meu lago, meu abraço. Incorrigivelmente desmedida.)